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quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

“A FELICIDADE NÃO SE COMPRA” (“It’s a Wonderful Life”, 1946), de Frank Capra

Rating:★★★★★
Category:Movies
Genre: Cult
Direção: Frank Capra
Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett, Frank Capra, Jo Swerling e Michael Wilson, baseado na história “The Greatest Gift”, de Philip Van Doren Stern
Produção: Frank Capra / Liberty Films Inc.
Fotografia: Joseph F. Biroc, Joseph Walker, Victor Milner
Montagem: William Hornbeck
Música: Dimitri Tiomkin
Direção de Arte: Jack Okey
Elenco: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Thomas Mitchell, Henry Travers, Todd Karns, Belulah Bondi, Frank Faylen, Ward Bond, Frank Albertson.

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Clarence: “Você ganhou um grande presente, George: uma chance de ver como o mundo seria sem você. (...) Estranho, não é? A vida de cada homem toca tantas outras vidas. Quando ele deixa de existir ele deixa um vazio terrível, não é?”

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Zuzu Bailey: "Olhe, Papai. A professora disse que toda vez que um sino toca, um anjo ganha as suas asas."

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Clarence: "Lembre-se, George: nenhum homem é um fracasso quando tem amigos."

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James Stewart virou marca registrada do homem comum norte-americano, tanto nos filmes de Hitchcock como nos de Frank Capra. E um filme de Capra virou marca registrada de Natal: "A Felicidade Não Se Compra". Na pequena Bedford Falls – uma cidade que parece ter sido desenhada por Norman Rockwell – o honesto George Bailey (James Stewart), que sempre ajudou os amigos e vizinhos, entra em desespero quando percebe que seu pequeno banco foi à falência, e que isso o levará diretamente à cadeia. Determinado a cometer suicídio na véspera de Natal saltando de uma ponte para um rio congelado, ele é salvo na última hora por um anjo, Clarence (Henry Travers). Ele é um anjo de "segunda classe", e para ganhar suas asas precisa convencer George a desistir de se matar. Para isso Clarence o leva numa viagem a um mundo paralelo onde George Bailey nunca existiu, para aprender a importância da vida e da amizade.

Sem dúvida um dos mais belos filmes de Frank Capra – o cineasta do otimismo e da bondade, onde um cidadão de valor é capaz de derrotar o mundo podre que o cerca – e uma das mais emocionantes obras já feitas sobre o valor do ser humano e da amizade, imitada e citada no mundo todo ao longo de décadas. Apesar do tema, “A Felicidade Não Se Compra” não escorrega para a pieguice. Ao contrário, oscila entre o trágico e o cômico – e em alguns momentos flerta com o humor negro. É de um tipo de fantasia cinematográfica pouco explorada nas últimas décadas. Sem elfos, magos, duendes, fadas, dragões ou gnomos, a obra-prima de Capra se adequa mais ao tipo de fantasia com a qual Rod Serling trabalhava na sua série “Além da Imaginação”. Podemos dizer que aqui James Stewart visita a Zona do Crepúsculo guiado por Frank Capra e por seu anjo sem asas, levando o público junto numa viagem através da própria consciência e de um conto natalino que quem viu, jamais esquece.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

“JANELA INDISCRETA” (“Rear Window”, 1954), de Alfred Hitchcock

Rating:★★★★★
Category:Movies
Genre: Mystery & Suspense
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no conto de Cornell Woolrich
Produção: Alfred Hitchcock / Paramount
Fotografia: Robert Burks, John P. Fulton
Montagem: George Tomasini
Música: Franz Waxman
Direção de Arte: Joseph MacMillan Johnson, Hal Pereira
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian, Georgine Darcy, Irene Winston, Sara Berner, Frank Cady

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Jeff: “Por que um homem deixa seu apartamento três vezes carregando uma mala durante uma noite chuvosa e volta pra casa três vezes?”
Lisa: “Talvez goste do jeito que a esposa o recebe.”

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Tenente Doyle: "As pessoas fazem muitas coisas em particular que não poderiam explicar em público."

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Lisa: "Por que Thorwald mataria um cachorrinho? Por que ele sabia demais?"

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Se alguém ainda tem alguma dúvida de que Alfred Hitchcock foi – além de um extraordinário cineasta – um dos maiores contadores de histórias do século 20, este é um dos filmes que aniquila essa dúvida de uma vez por todas. “Janela Indiscreta” mostra um fotógrafo (James Stewart) confinado em seu pequeno apartamento de fundos por conta de uma perna quebrada – ossos do ofício... – bisbilhotando a vida dos vizinhos, até que começa a suspeitar que um deles cometeu um assassinato. Com a ajuda de sua sofisticada noiva (a belíssima Grace Kelly), de sua irônica enfermeira (a impagável Thelma Ritter) e de um velho amigo policial (Wendell Corey), ele tenta provar que não está imaginando coisas.

Toda a narrativa é centrada num único ambiente, o apartamento do fotógrafo, o que torna a platéia cúmplice dele. Naturalmente todo fotógrafo tem uma boa dose de voyeurismo e passar os dias xeretando a intimidade dos vizinhos não só acentua isso, como também nos torna voyeurs. Ora, o fato de ir ao cinema para ver a história de outras pessoas não nega o nosso desejo de devassar a vida alheia, e Hitchcock só nos identifica mais ainda com seu protagonista.

Mais do que uma boa história ou mesmo um exercício de suspense, “Janela Indiscreta” é um filme SOBRE CINEMA. É a história de todos nós, sentados imóveis numa sala, observando avidamente o que a tela/janela tem a nos oferecer. E sem pretensões intelectuais, efeitos pirotécnicos ou ousadias narrativas, Hitchcock constrói uma das mais perfeitas obras metalingüísticas da História da sétima arte.

Indicado aos Oscars de direção, roteiro e fotografia, o filme envolve o espectador com todos os seus recursos. Todo rodado num imenso set nos estúdios da Paramount, “Janela Indiscreta” funciona como um relógio suíço. Todo o elenco está impecável (de Jimmy Stewart e Grace Kelly ao soturno Raymond Burr e Thelma Ritter, com suas tiradas sensacionais), a cenografia, a fotografia e o som nos convencem que estamos mesmo no Greenwich Village nova-iorquino, a trilha de Franz Waxman cria o clima ideal entre o suspense e o romance (junto com um pout-pourri de canções da época, incluindo a suave “Mona Lisa”, na voz de Nat King Cole). E toda essa teia nos enreda como uma mosca à mercê da aranha. Até que o bote fatal vem com uma pequena revolução narrativa imperceptível ao intelecto, mas gritante aos instintos: quando Grace Kelly mostra a aliança da suposta vítima para o binóculo de James Stewart, o suspeitíssimo Raymond Burr percebe que está sendo observado e nos encara de frente, feroz. Esse olhar sinistro direto para a câmera quebra a “quarta parede” e aí percebemos que caímos na armadilha preparada por Hitchcock: o assassino SABE que nós o vigiamos, e fará de tudo para nos calar. O mestre inglês sabia como ninguém manipular a platéia, dirigir a audiência, mais até do que os atores. E o olhar de Raymond Burr sobre nós em “Janela Indiscreta” consegue ser mais perturbador que todos os efeitos especiais do cinema contemporâneo.

Lembro que quando assisti ao filme no cine Veneza, na Praia de Botafogo, em 1984, toda a platéia pulou junto nas poltronas nessa cena, de susto por ter sido descoberta. Esse é o tipo de emoção que poucos cineastas nos fazem passar e que não dá para esquecer.