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sábado, 20 de agosto de 2011

ESBOÇO PARA MAIS UMA CRÔNICA DO CARA

Cansado, com sono, de cara pro beco sem saída do fim do dia, o cara tenta buscar refúgio na melhor, mais intensa e mais brilhante lembrança da infância perfeita. O tesouro mais precioso, mais do que a mãe perdida, do que as musas etéreas, do que a memória das ex-namoradas. Um conforto há tanto desejado, todo dia, sempre. Enquanto o corpo repousa na cama e no travesseiro cúmplice, a mente se acalenta, a alma viaja pra longe e o cara sorri, pouco antes de dormir. Dormir, talvez sonhar.

* * * * * * * * * * * * * * * * * * *

É preciso continuar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Conto (16): "OS FATOS NO CASO DO SR. VALDEMAR", de Edgar Allan Poe

Não devemos nos assombrar pelo fato de o caso do senhor Valdemar ter suscitado tantas discussões. Milagroso seria que as coisas não se tivessem passado assim, particularmente naquelas circunstâncias. O desejo comum a todas as partes interessadas de que o assunto se conservasse secreto, pelo menos de imediato, ou enquanto aguardasse a oportunidade de uma nova investigação, e os nossos esforços no sentido de obter um triunfo deram lugar a que se tivesse difundido um relato incorreto ou exagerado entre o público e que o assunto, apresentado com as cores mais desagradáveis, tenha dado origem a um grande descrédito.

Assim, é preciso que dê conta dos fatos, pelo menos tal como eu os compreendo e de uma maneira breve. Ei-los:

Várias vezes, no decurso dos últimos três anos, a minha atenção tinha sido atraída pelo magnetismo; e, há cerca de nove meses, acudiu-me subitamente à imaginação a idéia de que existia uma enorme e inexplicável lacuna na série de experiências feitas até o presente: ninguém havia sido mesmerizado in articulo mortis. Faltava saber se em tal estado o paciente podia receber o influxo magnético; em segundo lugar, se, em caso afirmativo, o influxo era atenuado ou ampliado devido a esta circunstância e, em terceiro lugar, até que ponto ou durante quanto tempo as usurpações da morte podiam ficar paralisadas por esta operação. Dever-se-ia verificar outros pontos, mas os anteriores eram os que mais excitavam a minha curiosidade, principalmente o último, em virtude do seu caráter transcendente.

Procurando à minha volta um indivíduo por meio do qual pudesse aclarar estes pontos, decidi-me pelo meu amigo Ernest Valdemar, compilador muito conhecido na Biblioteca Forense e autor (com o pseudônimo de Issachar Marx) das traduções polonesas de Wallenstein e de Gargântua. O senhor Valdemar, que residia habitualmente no Harlem (Nova Iorque), desde 1839, é, ou era, particularmente notado devido à sua excessiva magreza: os seus membros inferiores pareciam-se muito com os de John Randolph. Também dava na vista devido à brancura das suas grandes suíças, que contrastavam com a cabeleira negra, a ponto de muita gente pensar que ele usava peruca, tal a diferença de cores. Possuía um temperamento invulgarmente nervoso e era um excelente elemento para as experiências magnéticas. Em duas ou três ocasiões tinha-o feito adormecer sem grande dificuldade. Contudo, fiquei desconcertado a respeito de outros resultados que esperava obter da sua tão singular constituição. A sua vontade nunca esteve completamente sob a minha influência e, no que se refere à clarividência, nunca pude conseguir nada que pudesse considerar-se concludente. Eu sempre atribuíra os meus fracassos à sua precária saúde. Alguns meses antes de o conhecer, os médicos haviam-lhe diagnosticado uma tuberculose muito avançada. Devo também dizer que ele tinha o costume de falar com muito sangue-frio do seu fim próximo, como de uma coisa que não podia ser evitada nem sentida.

Quando me ocorreram pela primeira vez as idéias a que fiz referência, era muito natural que pensasse no senhor Valdemar. Conhecia suficientemente bem a filosofia do homem para recear quaisquer escrúpulos da sua parte e, como não tinha nenhum parente na América não era de temer este gênero de intervenção. Falei-lhe abertamente e verifiquei, com grande surpresa, que ele demonstrava um vivo interesse. Digo com grande surpresa porque, ainda que ele se tivesse prestado amavelmente às minhas experiências, nunca manifestara o menor interesse pelos meus estudos. A sua enfermidade era daquelas que permitem um cálculo exato quanto à hora do desenlace, e combinamos que ele mandaria chamar-me 24 horas antes do momento que os médicos indicassem para a sua morte.

Há sete meses recebi a seguinte carta do senhor Valdemar:

“Meu caro P…
“Já pode vir. Os doutores D… e F… estão de acordo e disseram-me que não passarei de amanhã. Creio que o cálculo deles deve ser bastante aproximado.”

Recebi esta carta cerca de meia hora depois de ter sido escrita e 15 minutos mais tarde encontrava-me no quarto do moribundo. Não o via há 15 dias e fiquei aterrado com a terrível alteração que este curto espaço de tempo tinha produzido nele. O seu rosto tinha a cor do chumbo, os olhos pareciam apagados e a sua magreza era tal que as maçãs do rosto estavam quase completamente descarnadas. Expectorava constantemente e tinha o pulso quase imperceptível. No entanto, conservava todas as suas faculdades espirituais e falava distintamente, tomando, sem necessidade de auxílio, alguns remédios que eram simples tranqüilizantes. Quando entrei no quarto, estava ocupado em escrever alguma coisa numa agenda. Achava-se amparado pelas almofadas da cama e era auxiliado pelos doutores D… e F…

Depois de ter apertado a mão de Valdemar, chamei os médicos de parte e pedi-lhes que me informassem acerca do estado do doente. Há cerca de oito ou dez meses, o pulmão esquerdo encontrava-se parcialmente ossificado e cartilaginoso e, portanto, incapacitado para toda a função vital. A parte superior do pulmão direito também se apresentava ossificada, embora não na sua totalidade, enquanto a parte inferior não passava de uma massa de tubérculos purulentos que penetravam uns nos outros. Havia, também, algumas perfurações profundas e, em determinada região, uma aderência permanente às costelas. Estas deteriorações do lóbulo eram de uma época relativamente recente. A ossificação tinha-se desenvolvido com uma rapidez insólita. Um mês antes não se descortinava o menor sintoma e a aderência havia sido assinalada somente nestes últimos dias. Independentemente da tuberculose, os médicos suspeitavam de um aneurisma da aorta, mas, a este respeito, os sintomas de ossificação tornavam impossível qualquer diagnóstico seguro. A opinião de ambos os médicos era de que o senhor Valdemar morreria por volta da meia-noite do dia seguinte, domingo. Eram, naquele momento, sete e meia da noite de sábado.

Ao abandonar a cabeceira do moribundo a fim de falar comigo, os doutores D… e F… tinham-se despedido dele pensando em não mais voltar. Todavia, a meu pedido, concordaram em tornar a ver o doente cerca das dez da noite.

Depois que eles se retiraram, falei livremente com o senhor Valdemar a respeito da sua morte próxima, e mais particularmente da experiência que tínhamos combinado realizar, e ele mostrou-se desejoso de iniciá-la imediatamente. Dois enfermeiros, um homem e uma mulher, deviam ajudar-nos. Porém, não me atrevia a empreender uma experiência de tamanha gravidade sem outras testemunhas cujas declarações oferecessem mais confiança no caso de surgir um acidente repentino. Acabava de marcar a operação para as oito quando a chegada de um estudante de Medicina, com o qual o senhor Valdemar tinha relações de amizade, o senhor Theodore L…, me ajudou a resolver a situação. Tinha pensado, a princípio, esperar pelos médicos, mas comecei logo, impelido não só pela insistência do senhor Valdemar, como também porque não havia tempo a perder.

O senhor L… acedeu amavelmente ao pedido que lhe expressei de que tomasse nota de tudo o que se ia passar e posso afirmar que anotou, palavra por palavra, o que aconteceu, pois foi a partir das suas notas que compilei este relato, com exceção de algumas partes que condensei.

Eram oito e cinco da noite quando, pegando na mão do doente, pedi-lhe que repetisse ao senhor L..

tão claramente quanto lhe fosse possível, o seu desejo de que eu fizesse com ele e naquelas condições, uma experiência de mesmerismo.

Valdemar repetiu em voz fraca, mas muito claramente:

- Sim, desejo ser mesmerizado. - E acrescentou em seguida: - Receio que já tenha passado tempo demais.

Enquanto ele falava, eu havia iniciado os passes que me pareciam mais eficazes para o adormecer. t certo que ele começou a sentir a influência da minha mão desde o primeiro passe hipnótico, mas, embora eu emanasse todo o meu poder, não se manifestou qualquer efeito apreciável até as 10h10m, momento em que os médicos D. e F. chegaram. Expliquei-lhes em poucas palavras o que pretendia e, como não puseram qualquer objeção, garantindo-me que o doente tinha entrado no período de agonia, continuei sem hesitação, substituindo os passes laterais por passes longitudinais e concentrando o meu olhar nos olhos do moribundo.

Enquanto isso, o pulso do senhor Valdemar tornara-se imperceptível e a sua respiração cada vez mais difícil, chegando a ficar suspensa durante períodos de cerca de meio minuto.

Esta situação manteve-se durante um quarto de hora, quase sem qualquer alteração.

Não obstante, ouvimos, decorrido este tempo, um suspiro natural, ainda que horrivelmente profundo, interrompendo-se a respiração entrecortada, quer dizer, cessando o estertor e passando a respirar com regularidade. As extremidades do doente estavam geladas.

Às 10h45m detectei sintomas indesmentíveis da influência magnética. O olhar vítreo e hesitante alterou-se, notando-se então aquela expressão penosa do olhar interior, que se observa somente nos casos de sonambulismo e acerca do qual não pode haver engano. Com alguns passes laterais rápidos fiz-lhe tremer as pálpebras, como quando temos sono, e, insistindo um pouco mais, fechei-as por completo. Todavia, isto não me bastava, e continuei com vigor os meus exercícios, projetando intensamente a minha vontade, até ter paralisado completamente os membros do doente adormecido, depois de o ter colocado numa posição aparentemente cômoda. As suas pernas estenderam-se por completo e os braços ficaram quase totalmente distendidos, repousando sobre o leito, a pequena distância dos rins. A cabeça achava-se ligeiramente elevada.

Já passava da meia-noite quando completei esta fase, e pedi aos presentes que observassem o estado do senhor Valdemar. Após algumas experiências, reconheceram que ele se encontrava num estado de catalepsia sumamente perfeita. A curiosidade dos dois medicos estava excitada em alto grau. O doutor D… decidiu, repentinamente, permanecer durante a noite inteira ao lado do doente, e o doutor F… retirou-se, prometendo voltar de madrugada. O senhor L… e os enfermeiros também ficaram.

Deixamos o senhor Valdemar completamente tranqüilo até as três da manhã e, a esta hora, aproximei-me dele e encontrei-o no mesmo estado em que o deixara o doutor F…, isto é, achava-se estendido na mesma posição, o pulso era imperceptível e a respiração regular, embora mal se sentisse, pois para se verificar a sua existência era necessário colocar-lhe um espelho diante da boca. Tinha os olhos fechados com naturalidade e os membros tão rígidos e frios como se fossem de mármore.

No entanto, a sua aparência geral não era a de um morto.

Ao aproximar-me do senhor Valdemar, fiz um pequeno esforço para obrigar o seu braço direito a seguir o meu nos movimentos que eu descrevia vagarosamente sobre a sua pessoa.

Noutras ocasiões, quando tentara estas mesmas experiências com o doente, nunca tinha triunfado por completo, e posso afirmar que também desta vez não contava com resultados satisfatórios. Todavia, verifiquei com grande espanto que o seu braço seguia muito suavemente, embora com pequena amplitude, todas as direções que o meu indicava. Tratei, então, de lhe fazer algumas perguntas.

- Senhor Valdemar - disse-lhe - está dormindo?

O senhor Valdemar não respondeu, mas, como visse que ele tremia os lábios, repeti a pergunta três vezes. Na terceira vez, um estremecimento percorreu-lhe o corpo. As pálpebras entreabriram-se sozinhas, deixando a descoberto uma pequena parte do globo ocular. Os lábios moveram-se devagar e deixaram escapar as seguintes palavras, num murmúrio quase indecifrável:

- Sim, estou dormindo. Não me acorde! Deixe-me morrer assim!

Apalpei-lhe os membros e encontrei-os tão rígidos como anteriormente. O braço direito, como fizera até momentos antes, obedecia às direções indicadas pela minha mão. Interroguei de novo o sonâmbulo:

- Ainda lhe dói o peito, senhor Valdemar?

A resposta fez-se esperar um pouco e ele murmurou com voz mais débil que da vez anterior:

- Dor? Não, estou morrendo,

Achei conveniente não o atormentar mais por enquanto e nada mais lhe disse até chegar o doutor F… que ficou assombrado ao ver o doente ainda vivo, quase ao amanhecer. Depois de lhe ter tomado o pulso e de lhe pôr um espelho diante da boca, pediu-me que falasse de novo com o moribundo, o que fiz da seguinte maneira:

– Senhor Valdemar, ainda continua dormindo?

Como anteriormente, ele tardou alguns minutos a responder, e, durante este intervalo, o senhor Valdemar parecia reunir toda a sua energia para falar. Ao interrogá-lo pela quarta vez, respondeu muito fracamente, de uma forma quase ininteligível:

- Sim, estou dormindo, morrendo.

Os dois médicos foram então de opinião, ou, melhor, exprimiram o desejo de que não se incomodasse o senhor Valdemar, deixando-o estar naquele estado de coma aparente, até que morresse. E isto devia ocorrer, prognóstico em que ambos estavam de acordo, no prazo de cinco minutos. No entanto, decidi falar-lhe de novo, repetindo a minha pergunta anterior.

Enquanto falava, operou-se uma grande modificação na fisionomia do moribundo. Os olhos giraram nas órbitas e abriram-se, a pele adquiriu a tonalidade da morte, e duas manchas circulares, febris, que até pouco tempo atrás se achavam claramente fixadas nas faces, apagaram-se de repente. Sirvo-me desta expressão porque a rapidez da sua desaparição fez-me lembrar uma vela que se apaga com um sopro. Ao mesmo tempo, o lábio superior contraiu-se, deixando os dentes a descoberto, enquanto o maxilar inferior caía bruscamente, produzindo um ruído que foi ouvido por todos, deixando a boca aberta e descobrindo completamente a língua negra e inchada. Presumo que todos os presentes estavam familiarizados com o espetáculo da morte, mas, no entanto, o aspecto do senhor Valdemar naquele momento tornou-se tão hediondo que todos recuamos, horrorizados.

Suponho que, ao chegar a este ponto, o leitor revoltado não queira dar-me crédito. No entanto, é meu dever continuar.

O senhor Valdemar não apresentava o menor indício de vida e, julgando que ele estava morto, íamos deixá-lo entregue aos enfermeiros, quando ouvimos um murmúrio que brotava da sua boca e que duraria cerca de um minuto. E ouvimos uma voz que seria loucura tentar descrever. Apesar disso, há dois ou três vocábulos que se poderiam aplicar, embora não dêem uma idéia cabal. Assim, posso dizer que o som era áspero, dilacerante e cavernoso. Porém, a descrição total não é definível, pois nenhum ouvido humano registrou jamais tais vibrações. A despeito de tudo, havia duas particularidades que, pensei então e ainda continuo a pensar, podiam considerar-se como características da sua entoação e que podem dar alguma idéia da sua singularidade extraterrestre. Em primeiro lugar, a voz parecia chegar aos nossos ouvidos, ou pelo menos aos meus, vinda de grande distância, como que surgida de um subterrâneo. Em segundo lugar, impressionou-me da mesma maneira (receio que seja impossível fazer-me compreender), da mesma maneira, dizia, que as matérias pegajosas e gelatinosas afetam o tato.

Falei ao mesmo tempo em som e voz, mas é meu desejo dizer que, no som, destacavam-se as sílabas com muitíssima clareza, com uma clareza terrível e espantosa. O senhor Valdemar falava, evidentemente para responder à pergunta que lhe tinha feito momentos antes. Como devem recordar-se, tinha-lhe perguntado se continuava dormindo ao que agora me respondia:

- Sim, dormi, eis que agora me encontro morto. Nenhuma das pessoas presentes pôde negar nem sequer pôr em dúvida o indescritível, o extremo horror destas palavras assim proferidas.

O senhor L…, o estudante, desmaiou. Os enfermeiros fugiram precipitadamente e não houve maneira de conseguir que voltassem. Quanto às minhas próprias impressões, não pretendo que o leitor chegue a compreendê-las. Durante perto de uma hora, sem trocarmos uma palavra, esforçamo-nos por fazer o jovem L… recobrar os sentidos. Quando voltou a si, prosseguimos as nossas investigações acerca do estado do senhor Valdemar.

Este continuava tal e qual descrevi anteriormente. Porém, não se obtinha o mínimo vestígio de respiração com o espelho. Uma tentativa de sangria num braço não teve êxito. Devo também dizer que o seu braço não obedecia à minha vontade e foi inutilmente que tentei fazê-lo seguir a direção da minha mão. A única indicação real da influência magnética apenas se manifestava pelo movimento vibratório da língua. Cada vez que dirigia uma pergunta ao senhor Valdemar, este parecia fazer um esforço para responder-me, como se já não dispusesse de vontade suficiente. Se algum dos presentes, excetuando eu próprio, lhe dirigia alguma pergunta, parecia insensível, embora eu tivesse tratado de pô-lo em relação magnética com eles. Creio agora ter relatado tudo o que é necessário para fazer compreender o estado do sonâmbulo neste período… Tratamos de arranjar outros enfermeiros e, às 10 horas, retirei-me, na companhia dos médicos e do senhor L…

À tarde, voltamos todos para ver o doente. O seu estado era absolutamente o mesmo. Travamos então uma discussão acerca da oportunidade e da possibilidade de despertá-lo, e não tardou que todos compreendêssemos as poucas vantagens que isso representaria para o senhor Valdemar. Era evidente que até aquele momento, a morte, ou o que se define pelo vocábulo morte, tinha ficado paralisada pelo magnetismo. Pareceu a todos evidente que despertar o senhor Valdemar seria, muito simplesmente, provocar, ou pelo menos acelerar, o seu fim.

Desde este dia até o último da semana passada, isto é, durante um período de quase sete meses, continuamos a reunir-nos em casa do senhor Valdemar, acompanhados de vários médicos e amigos. Durante todo este tempo, o sonâmbulo continuou no mesmo estado que já descrevi. Os enfermeiros vigiavam-no continuamente.

E na última sexta-feira, resolvemos despertá-lo, ou, pelo menos, tentar despertá-lo. O resultado deplorável desta última tentativa é que deu lugar a tantas discussões nos círculos privados, a tantos boatos, nos quais não posso deixar de ver uma injustificada credulidade popular.

Para arrancar o senhor Valdemar da catalepsia magnética fiz um dos passes habituais. Durante algum tempo não deram qualquer resultado, O primeiro sintoma de vida foi uma depressão parcial da íris. Observamos, como fato digno de nota, que esta depressão foi acompanhada de um fluxo muito abundante de um líquido amarelado, surgido de sob as pálpebras e que tinha um cheiro acre e muito desagradável.

Ocorreu-me então a idéia de exercer a minha influência sobre o braço do paciente, como fizera anteriormente. Nada consegui, apesar dos meus esforços. O doutor F… manifestou o desejo de que eu lhe fizesse uma pergunta. Fi-la nos seguintes termos:

- Senhor Valdemar, pode explicar-nos o que neste momento sente ou deseja?

As suas faces voltaram imediatamente a colorir-se com as manchas febris, a língua estremeceu, ou melhor, girou-lhe violentamente dentro da boca (embora os maxilares e os lábios continuassem imóveis) e ao fim de certo tempo tornamos a ouvir a pavorosa voz que já descrevi:

- Pelo amor de Deus!. .. Depressa! Depressa!… Faça-me dormir… ou então… depressa!… desperte-me! Depressa! Já lhe disse que estou morto!

Senti-me completamente aturdido e durante um minuto fiquei sem saber o que havia de fazer. Primeiro, tratei de tranqüilizar o paciente, mas a falta de vontade fez-me fracassar, e, em vez de acalmá-lo, envidei os meus esforços no sentido de despertá-lo. Em breve verifiquei que esta minha tentativa obteria êxito, ou pelo menos assim pensei, e estou certo de que todos os que se encontravam no quarto esperavam ver o sonâmbulo despertar.

Porém, é de todo impossível que algum ser humano estivesse preparado para o que sucedeu realmente.

Enquanto eu fazia os passes magnéticos, no meio de gritos de morto!, morto!, que literalmente explodiam na língua e não nos lábios do paciente, todo o seu corpo, subitamente, no espaço de um minuto ou menos, contraiu-se, diminuiu, desapareceu, apodreceu completamente debaixo das minhas mãos. Em cima da cama, diante dos olhos de todas as testemunhas, jazia uma massa repugnante, quase líquida, uma abominável putrefação.

sábado, 6 de setembro de 2008

Conto (15): "O ESMAGAMENTO DAS GOTAS", de Julio Cortázar

O Esmagamento das Gotas

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.

Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada do cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.

(Julio Cortázar, no sortimento Matéria Plástica do livro "Histórias de Cronópios e de Famas". Tradução de Glória Rodríguez)

 

domingo, 31 de agosto de 2008

Conto (14): "O JORNAL E SUAS METAMORFOSES", de Julio Cortázar

O Jornal e Suas Metamorfoses

Um senhor pega um bonde depois de comprar o jornal e pô-lo debaixo do braço. Meia hora depois, desce com o mesmo jornal debaixo do mesmo braço.

Mas já não é o mesmo jornal, agora é um monte de folhas impressas que o senhor abandona num banco de praça.

Mal fica sozinho na praça, o monte de folhas impressas se transforma outra vez em jornal, até que um rapaz o descobre, o lê, e o deixa transformado num monte de folhas impressas.

Mal fica sozinho no banco, o monte de folhas impressas se transforma outra vez em jornal, até que uma velha o encontra, o lê e o deixa transformado num monte de folhas impressas. Depois, leva-o para casa e no caminho aproveita-o para embrulhar um molho de acelga, que é para o que servem os jornais depois dessas excitantes metamorfoses.

 

(Julio Cortázar, no sortimento Matéria Plástica do livro "Histórias de Cronópios e de Famas". Tradução de Glória Rodríguez)

 

Conto (13): "HISTÓRIA VERÍDICA", de Julio Cortázar

História Verídica

Um senhor deixa cair no chão os óculos, que fazem um barulho terrível ao bater nos ladrilhos. O senhor se abaixa aflitíssimo porque as lentes dos óculos custam muito caro, mas descobre assombrado que por milagre elas não se quebraram.

Então, esse senhor sente-se profundamente grato, e compreende que o acontecimento vale por uma advertência amigável, de maneira que se dirige a uma ótica e compra logo um estojo de couro acolchoado, comproteção dupla, como precaução. Uma hora depois deixa cair o estojo e ao abaixar-se sem maior precaução verifica que os óculos viraram farelo. Esse senhor leva tempo para compreender que os desígnios da Providência são insondáveis e que na realidade o milagre aconteceu agora.

 

(Julio Cortázar, no sortimento Matéria Plástica do livro "Histórias de Cronópios e de Famas". Tradução de Glória Rodríguez)

 

domingo, 17 de agosto de 2008

Conto (12): "O ANIVERSÁRIO DA VOVÓ", de Fredric Brown

Fredric Brown (1906-1972) nasceu em Cincinnati e escreveu cerca de trezentos contos e vinte e nove romances, a maioria nos gêneros de mistério e ficção científica. Seu conto "Arena" serviu de base para o episódio da série televisiva clássica "Jornada nas Estrelas" de mesmo nome. O conto típico de Fredric Brown tem duas características principais: é curto, e aplica no leitor uma surra brutal."O Aniversário da Vovó" ("Granny’s Birthday", 1960) talvez seja um de seus contos mais breves; mas é indubitavelmente um dos mais devastadores.

Já publiquei aqui na VALISE DE CRONÓPIO o conto mais famoso desse fantástico escritor, "Resposta". Clique para ler essa pequena obra-prima. http://ozlopesjr.multiply.com/journal/item/43

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Os Halperins eram uma família muito unida. Wade Smith, um dos únicos presentes que não pertencia à família, invejava-os por isso, de vez que ele próprio não tinha família – mas a inveja temperava-se com uma doçura cálida, por obra do copo na mão dele.

Era a festa de aniversário da Vovó Halperin, a festa dos oitenta anos dela; todos os presentes, exceto Smith e outro convidado, eram Halperins ou levavam o nome Halperin. Vovó tinha três irmãos e uma irmã. Todos estavam lá; os três homens eram casados e tinham levado as esposas. Com isto, havia oito Halperins, incluindo Vovó. Havia ainda quatro membros da segunda geração, netos, um deles com a respectiva esposa, elevando para treze o número de Halperins. Smith contou: treze Halperins. Com ele próprio e o outro não-Halperin, um homem chamado Cross, eram quinze adultos presentes. E estiveram também presentes, mais cedo, outros três Halperins, bisnetos, mas foram levados para dormir logo no começo da noite, em horas correspondentes à idade de cada um.

E ele gostava deles todos, pensou Smith, com candura, embora, depois que as crianças foram retiradas, o álcool estivesse fluindo com abundância e a festa se tornasse um tanto barulhenta demais, para seu gosto. Todos bebiam; mesmo Vovó, sentada em uma cadeira que mais parecia um trono, tinha à mão um cálice de xerez, o terceiro da noite.

Era uma velhinha maravilhosamente doce e viva, pensou Smith. Realmente uma matriarca; como era doce! admirou Smith. Dirigia a família com uma vara de ferro em luva de veludo – ele já estava suficientemente embriagado para confundir as metáforas.

Smith estava lá a convite de Bill Halperin, um dos filçhos de Vovó; era procurador e amigo de Bill. O outro forasteiro, um certo Gene ou Jean Cross, parecia ser amigo de vários netos de Vovó.

No outro lado da sala, ele via Cross em conversa com Hank Halperin e percebeu que alguma coisa dita entre eles levara subitamente a uma discussão irada e gritada. Smith esperou que o assunto não trouxesse complicações; a festa estava agradável demais para ser interrompida por uma briga, ou mesmo altercação.

De repente,porém, Hank Halperin deu um soco no queixo de Cross e este caiu de costas. A cabeça dele bateu na quina da lareira; ouviu-se um baque surdo e ele ficou prostrado no chão. Hank correu até ele, ajoelhou-se e apalpou-o. Quando olhou em volta estava pálido, e logo levantava-se.

– Está morto – disse, desalentado. – Por Deus, eu não quis matá-lo! Mas ele disse...

Vovó já não sorria mais. A voz dela saiu resoluta, conquanto lastimosa:

– Ele tentou bater em você primeiro, Henry. Eu vi. Todos vimos isto, não foi?

Com a última frase, ela voltara-se para Smith, o forasteiro sobrevivente. Smith mexeu-se, contrafeito.

– Eu... eu não vi como a coisa começou, Sra. Halperin.

– Viu sim – interrompeu ela. – O senhor estava olhando bem na direção deles, Sr. Smith.

Antes que Wade Smith pudesse responder, Hank Halperin estava dizendo:

– Vovó, eu sinto muito, mas mesmo isto não resolve o assunto. Estamos numa dificuldade realmente grande. Lembre-se de que eu lutei durante sete anos como boxeador profissional. E os punhos de um boxeador, ou ex-boxeador, são considerados armas letais, do ponto de vista legal. Isto transforma a coisa em assassinato em segundo grau, mesmo se ele tivesse dado o primeiro soco. O senhor sabe disso, já que é advogado. E com os outros problemas que já tive, a polícia vai pegar minha ficha e jogar em cima de mim.

– Infelizmente acho que o senhor está certo – disse Smith, hesitante. – Mas não seria melhor que alguém chamasse um médico, ou a polícia, ou ambos?

– Num instante, Smith – disse Bill Halperin, o amigo de Smith. – Mas primeiro temos que acertar a coisa entre nós. Foi legítima defesa, não foi?

– Eu... Eu acho... Eu não sei o que...

– Esperem, ouçam todos – disse Vovó, com a voz dura e afiada. – Mesmo se foi legítima defesa, Henry estará em dificuldade. E vocês acham que podemos confiar nesse Smith quando ele estiver fora daqui, num tribunal?

Bill Halperin disse:

– Mas Vovó, temos que...

– Deixe de bobagem, William. Eu vi o que aconteceu. Todos vimos. Eles brigaram, Cross e Smith, e um matou o outro. Cross matou Smith e depois, tonto com os golpes que ele próprio recebera, caiu e bateu com a cabeça na pedra. Não vamos deixar que Henry vá para a cadeia, não é mesmo, meus filhos? Não um Halperin, não um de nós. Henry, machuque um pouco esse cadáver, para que ele pareça ter saído de uma briga, e não de um simples soco. E vocês outros...

Os Halperins machos, com exceção de Henry, fecharam um círculo em torno de Smith; as mulheres, com exceção de Vovó, vinham logo atrás. E o círculo estreitou-se.

A última coisa que Smith viu claramente foi Vovó em sua cadeira mais parecida com um trono, os olhos brilhantes de excitação e determinação. E a última coisa que Smith ouviu, no silêncio subitamente formado na sala, foi o som leve do risinho de Vovó. Depois veio o primeiro soco.

 

sábado, 17 de junho de 2006

O PEDESTRE


Sempre que saio na rua às 3 da manhã, e caminho até a padaria/confeitaria que fica aberta 24 horas a duas quadras da minha casa para tomar uma média bem quente com um sanduíche de mortadela caprichado, tenho uma sensação estranha. Muito boa e bizarra ao mesmo tempo. Muito boa porque está frio, a rua está vazia, me passa uma solidão positiva (coisa que não sinto desde a adolescência).


E bizarra - e interessante - porque me sinto dentro de um conto fantástico de ficção científica de Ray Bradbury chamado "O Pedestre". A história se passa num futuro incerto e totalitário onde as pessoas não têm permissão de sair a noite, nem nos seus veículos, muito menos caminhando. E ser pego caminhando à noite é considero um crime gravíssimo. Até que o pedestre protagonista da história é descoberto pelas "forças da lei".


Eu cheguei a filmar "O Pedestre" no iniciozinho da faculdade com um amigo, onde nós dois nos revesávamos fazendo tudo: câmera, direção, montagem, cenografia, figurino; porém EU era o pedestre. Filmamos em Super-8 e isso é um material perdido que acredito que nem Indiana Jones seria capaz de achar novamente.


Bons tempos do passado passados num futuro incerto que não voltam mais.


 

quarta-feira, 19 de abril de 2006

Conto (11): "FLOR, TELEFONE, MOÇA", de Carlos Drummond de Andrade



Este é um dos melhores contos que já li na vida, e bastante inusitado vindo de quem é. "Flor, Telefone, Moça" é uma das raríssimas incursões de Drummond na literatura fantástica, no universo do sobrenatural. Este conto é tão perturbador quando "A Pata do Macaco" de W. W. Jacobs (já postado aqui: http://ozlopesjr.multiply.com/journal/item/21), e se Rod Serling o tivesse lido, bem que poderia tê-lo adaptado para o seu clássico seriado "Além da Imaginação".


Agora, para quem não conhece este lado soturno de um dos nossos maiores poetas, confira a leitura...


 


FLOR, TELEFONE, MOÇA


De Carlos Drummond de Andrade


Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.


Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.


– Sei de um caso de flor que é tão triste!


E sorrindo:


– Mas você não vai acreditar, juro.


Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.


– Era uma moça que morava na Rua Gerenal Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.


Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defundo, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve Ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar pra passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, comtemplando túmulo. Coitada!


– No interior isso não é raro...


– Mas a moça era de Botafogo.


– Ela trabalhava?


– Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear – ou melhor, "deslizar" pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma.. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões – sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas. E deve Ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.


– Que flor?


– Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz – não tem cheiro, como inconscientemente já esperava –, depois amassa a flor, joga para um canto. Nào se pensa mais nisso.


Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.


– Aloooô...


– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?


A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:


– O quê?


Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cnco minutos depois, o telefone chamava de novo.


– Alô.


– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?


Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.


– Está aqui comigo, vem buscar.


No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:


– Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.


Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:


– Vem buscar, estou te dizendo.


– Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.


– Mas quem está falando aí?


– Me dá minha flor, eu estou te suplicando.


– Diga o nome, senão eu não dou.


– Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.


O trote era estúpido, não variava, e moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.


Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.


– Alô!


– Quede a flor...


Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada voltou à costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:


– Olhe, vire a chapa, já está pau.


– Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.


– Essa é fraquinha. Não sabe de outra?


E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a idéia daquela flor, ou antes, a idéia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de Ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda... Você está vendo que a moça começou a Ter medo.


– E eu também.


– Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno – admitindo que se tratasse de pessoa morta – ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.


A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz.) Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam "a voz".


– A voz chamou hoje? Indagava o pai, chegando da cidade.


– Ora. É infalível, suspirava a mãe, desalentada.


Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a freqüentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?


O rapaz começou a tocar para todos os telefones da Rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia... Discava, ouvia o alô, conferia a voz – não era –, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto – o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça – e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas.


Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem com as amigas. Então a "voz", que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais "você me dá minha flor", mas "quero minha flor", "quem furtou minha flor tem que restituir", etc. Diálogo com essas pessoas a "voz" não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a "voz" não dava explicações.


Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade – o fato é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica...


– Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?


– Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.


Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando? Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque – já disse que era distraída – nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse...


O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas. A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.


Mas a "voz" não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume – isso não dizia a voz, era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?


O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e esta flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?


– Mas, e a moça?


– Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.


 


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(Extraído do livro "CONTOS DE APRENDIZ", de Carlos Drummond de Andrade, 1951. Editora Record, 22ª edição, Rio de Janeiro.)