Reunir os amigos para ver filmes na casa de um deles era um dos programas favoritos do cara. Desta vez a anfitriã era Rosemary, que ainda morava com os pais. O apartamento era antigo, daqueles grandes, num prédio imenso construído nos anos 40 ou 50 em Copacabana. Os pais da garota estavam viajando e eles faziam uma noite de queijos e vinhos, enquanto decidiam o que assistir no DVD. O acervo da casa era restrito aos clássicos românticos da mãe, aos faroestes e filmes de guerra do pai e a algumas coisas moderninhas de Rosemary. O cara tinha levado "Shaun of the Dead", que era seu cult-movie na época e só alguns da turma viram. A Josie estava preparada com um show da Marisa Monte e "Chicago", para ter opções se o pessoal ficasse na dúvida entre um musical e um musical. O Léo, como sempre, tinha levado um Wim Wenders e um Fellini. Adriane esqueceu de levar filme e não fazia veto a nenhum. O Edson sacou triunfante da mochila seu último box do "Seinfeld" e "Munique", que ninguém viu no cinema. Mas como todos preferiam mesmo comédias e acabaram entrando no clima nostálgico do Ricardo, a escolha unânime foi o filme que ele levou, "A Dança dos Vampiros", do Polanski.
Rosemary estava toda tensa, com medo do pessoal lambuzar o sofá da mãe de cheddar e gruyère. O Léo, que nem sacava mais do que os outros sobre vinhos, logo se tornou o senhor-todo-poderoso do saca-rolhas quando foi o primeiro a conseguir abrir uma resistente garrafa de merlot chileno. Adriane tinha organizado a lista de compras e parecia ser a pessoa mais responsável ali presente. O resto da turma só queria mesmo era bater-papo, beber muito, degustar uns laticínios chiques e curtir um bom filme.
Naquela noite, penetrando no coração da Transilvânia, o professor Abronsius levou seu fiel assistente Alfred e a turma toda para uma deliciosa aventura soturna e hilária. Edson salivava só de olhar o pescoço de Sharon Tate, indefesa na banheira. A Josie não parava de se encantar em como o Polanski estava garoto e "bonitinho", apesar da nareba e da cara de nerd. O cara devorava todo o gorgonzola que podia, num pão sírio e regado a um tinto gaúcho, enquanto Adriane parecia mais feliz em degustar sua taça de vinho californiano e em estar cercada dos amigos mais queridos. De vez em quando Ricardo soltava umas observações engraçadinhas, como de hábito, e Léo insistia nas comparações entre os vampiros da Universal, da Hammer e do raio que o parta, já que quase sempre se ouvia um shhhh quando ele abria a boca (mais de pirraça mesmo).
Lá pelas tantas, enquanto Shagal implorava um lugar para dormir ao medonho corcunda Koukol, o cara foi esvaziar seu tonel no banheiro, para poder enchê-lo de novo com a sagrada bebida de Baco. Logo que entrou, ficou espantado com o tamanho do cômodo. O banheiro bem que poderia pertencer ao castelo do Conde von Krolock. Com um pé direito bem alto, uma pia e um espelho de fazer inveja a qualquer hotel europeu classudo, banheira e box separados, bidê e todas as toalhinhas e bibelôs característicos, o lugar tinha peças de mármore e era forrado com imponentes e belos azulejos que pareciam ter chegado ao Brasil nas caravelas. Enquanto esvaziava a bexiga na respeitável privada (até o limite máximo que uma privada pode ser respeitável), o cara concluiu que bastava aquele banheiro para se montar uma boa festa com umas garotas, um sonzinho e uma garrafa de Jack Daniels.
Porém havia algo de diferente ali que o cara não conseguia captar. Não, não era o cheiro. O lugar realmente era perfumado com as essências da mãe de Rosemary. Apesar de todo o banheiro parecer não pertencer ao mundo real, simplesmente havia algo ali que não parecia certo de verdade. Só que o cara não descobria, por mais que tentasse. Fechou o ziper e lavou as mãos, ensaboando-as insistentemente num singular peixe-sabonete, que provavelmente foi feito antes dele nascer. Ao enxugar as mãos, o cara notou que seu cadarço estava solto. Instintivamente apoiou o pé no bidê para amarrar o laço. E aí se deu a tragédia.
O aristocrático bidê estava solto e o cara se agarrou no porta-toalhas para não cair. Ao contrário dele, a peça de mármore não tinha mãos e se espatifou no chão, ecoando como uma explosão pelo apartamento. Assustado com o estrago que fez por causa de um tênis desamarrado e sem poder evitar as conseqüências, o cara saiu correndo dali. Na sala, todos estavam parados e mudos, como numa fotografia, alguns com as taças a meio caminho da boca, outros com nacos de queijo entre os dentes, todos de olhos arregalados e inquisitivos. Apavorada por suspeitar o que tinha acontecido, Rosemary correu até a porta do banheiro e gritou.
Segurando uma longa faca suja de queijo brie, ela levou a outra mão à boca e arregalou os olhos azuis como dois pires. "O que você fez com o bidê da minha mãe, seu idiota? O banheiro estava em obras, sua anta! Eu te disse pra tomar cuidado!". O cara não sabia o que fazer, o que dizer, aonde se enfiar. Queria sumir descarga abaixo. Adriane defendia o coitado enquanto – só para piorar as coisas – Josie só pensava na reação da mãe de Rosemary quando voltasse de viagem. E a anfitriã, descontrolada, com aqueles olhos imensos e a ameaçadora faca na mão continuava gritando "O QUE VOCÊ FEZ COM ELE? O QUE VOCÊ FEZ COM O BIDÊ?"
Diante da cena, alheio à confusão e depois de uma garrafa e meia de beaujolais, Ricardo olhou o Polanski na tevê e ainda pensou em responder "ele tem os olhos do pai". Mas pensou melhor e se calou, com medo que a lâmina suja de queijo na mão de Rosemary fosse parar no seu pescoço.