sexta-feira, 10 de abril de 2009

CINEMA DE PAPEL (Parte 5) - DO FUNDO DA CRIPTA

CINEMA DE PAPEL (Parte 5) – DO FUNDO DA CRIPTA

Oswaldo Lopes Jr.

 

(Matéria escrita para a revista VEREDAS # 28 do Centro Cultural Banco do Brasil em abril de 1998, e republicada aqui na VALISE DE CRONÓPIO em oito partes)

 

 

Os anos 50 trouxeram a Era Atômica, a Guerra Fria, o macartismo e as revistas de terror da EC Comics. Violência gráfica e muito humor negro para combater a paranóia desenfreada e a repressão política. Tales From the Crypt, Vault of Horror, Weird Science e outros títulos chocaram a sociedade e foram rapidamente contidos, com uma ação direta da Comissão Warren de “caça aos comunistas”. É Bem verdade que os monstros, zumbis e psicopatas da EC comiam criancinhas, mas não rezavam pela cartilha de Kruchov ou Mao Tsé-Tung.

 

Após o fim dos títulos de terror da editora, sua chama foi mantida acesa nos anos 70 pela produtora inglesa Amicus, com dois filmes de episódios, nos anos 80 pelo diretor George Romero com o brilhante Creepshow, e nos anos 90 pela emissora de TV HBO, com o seriado Tales From the Crypt (que chegou a render dois longas para o cinema). Os filmes da Amicus são eficazes como gênero mas se mantém impermeáveis à forma dos quadrinhos. Entretanto, Creepshow é uma das mais importantes simbioses entre as duas artes já feitas no cinema, um autêntico “cine-gibi”, com cortes que simulam páginas virando, onomatopéias e cenários que reproduzem os quadros e splashes dos quadrinhos. Além disso, a história toda se passa dentro de uma revista de terror e mantém o impacto visual das atrocidades da velha e boa EC Comics.

 

Quase tão essencial quanto Creepshow, mas feita para a TV, é a série Tales From the Crypt (exibida no Brasil pela Bandeirantes há uns anos atrás com o título de Contos da Cripta). O produtor Joel Silver (“Duro de Matar”) e os diretores Richard Donner (“Superman – O Filme”, “Máquina Mortífera”), Robert Zemeckis (“Uma Cilada Para Roger Rabbit”, “Forrest Gump”) e Walter Hill (“Warriors, os Selvagens da Noite”, “48 Horas”) se reuniram com a intenção de adaptar cada história de terror da lendária editora para a telinha. O resultado foi uma grande antologia que às vezes erra na mão mas que, no conjunto, satisfaz plenamente aos fãs de quadrinhos.

 

 

A SEGUIR... O “ESPÍRITO DA COISA”.

 

CINEMA DE PAPEL (Parte 4) - HERÓIS DE SÁBADO À TARDE

CINEMA DE PAPEL (Parte 4) – HERÓIS DE SÁBADO À TARDE

Oswaldo Lopes Jr.

 

(Matéria escrita para a revista VEREDAS # 28 do Centro Cultural Banco do Brasil em abril de 1998, e republicada aqui na VALISE DE CRONÓPIO em oito partes)

 

 

O tempo foi passando e o cinema e as HQs continuaram inseparáveis. A década de 30 viu surgir um batalhão de heróis de aventuras nas páginas dos jornais. Os produtores de Hollywood logo enxergaram o seu potencial e trataram de adaptá-los para as telas. Flash Gordon, de Alex Raymond, Dick Tracy, de Chester Gould, Mandrake e Fantasma, de Lee Falk, entre outros, viraram seriados de cinema, um formato que já vinha fazendo sucesso na época, com episódios curtos exibidos nas matinês de fins de semana.

 

Em 1938, Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o primeiro herói mais rápido que uma bala e mais poderoso que uma locomotiva, revolucionando a hierarquia dos defensores da lei e o mercado dos quadrinhos. Um ano depois Bob Kane foi buscar inspiração numa invenção de Leonardo da Vinci, no filme “The Bat” e em personagens como o Zorro e o Sombra para moldar o seu sinistro herói vestido de morcego. Sem demora, Superman e Batman também voaram para as matinês de cinema, consolidando o formato. As roupas dos heróis eram ridículas e espalhafatosas, os vilões eram caricatos, as cenas de perigo eram nitidamente artificiais, mas nada disso importava. Na verdade, muitos desses detalhes eram uma perfeita transposição para as telas da linguagem das HQS, o que ajudava a lotar as salas de exibição de crianças e adultos ávidos por ação e aventura. Na verdade, foi um momento glorioso para ambas as formas de arte. O cinema começava a formar um público cativo, fanático por um tipo de filme que ia buscar nas comic books sua matéria-prima. Os seriados fizeram tanto sucesso que duraram até meados dos anos 50.

 

Em 1940, as linguagens do cinema e das HQs evoluíram sensivelmente com o lançamento de duas obras: Cidadão Kane, o filme de Orson Welles, e The Spirit, personagem de quadrinhos de Will Eisner. Esses jovens revolucionários mudaram vários conceitos de forma e narrativa, como a profundidade de campo e movimentos de câmera considerados impossíveis (Welles) ou a ousadia no uso de títulos, onomatopéias, bordas e enquadramentos (Eisner), lançando um novo olhar e uma nova perspectiva às duas linguagens. Além de obras-primas, Kane e Spirit foram verdadeiros divisores de águas, influenciando todos os seus sucessores.

 

 

A SEGUIR... DO FUNDO DA CRIPTA.

 

domingo, 22 de março de 2009

Sheena Easton - Morning Train (Nine To Five)




Sheena Easton - antes de estourar com o tema de James Bond "For Your Eyes Only" - já fazia sucesso com essa canção. Canção essa que marcou várias noites de fossa pela minha primeira grande paixão de adolescência, entre o final dos anos 70 e início dos 80. A música em si não é lá grandes coisas, mas só de ouvir a melodia do refrão meus aurículos e ventrículos cardíacos já batem descompassados pela nostalgia daqueles tempos. Pena que o clipe original não está inteiro, mas enfim, é apenas mais uma recordação emocional guardada num baú empoeirado de memórias... :-)

sábado, 14 de março de 2009

CINEMA DE PAPEL (Parte 3) - TRADUÇÃO, MONTAGEM E BOM SENSO

CINEMA DE PAPEL (Parte 3) – TRADUÇÃO, MONTAGEM E BOM SENSO

Oswaldo Lopes Jr.

(Matéria escrita para a revista VEREDAS # 28 do Centro Cultural Banco do Brasil em abril de 1998, e republicada aqui na VALISE DE CRONÓPIO em oito partes)


Assim como nas adaptações literárias, não existe uma receita de sucesso ou mesmo um conjunto de regras preestabelecidas quando se leva uma história em quadrinhos para a tela grande. Os dois únicos mandamentos são: encontrar os signos cinematográficos que melhor traduzem os signos das HQs e – acima de tudo – ter bom senso. Batman, de Tim Burton*, nos fornece um bom exemplo do primeiro mandamento. Nos gibis, o Homem-Morcego usa uma roupa colante cinza com máscara e capa azuis. Num mundo de carne e osso, alguém vestido assim causaria ataques de riso. Qual seria a melhor tradução dessa indumentária no celulóide?

É preciso analisar a intenção de Bruce Wayne ao se vestir assim. Esgueirar-se nas sombras, impressionar e causar medo nos criminosos. Nesse caso, não caberia melhor uma roupa negra, em material que misture borracha e couro? Foi essa a interpretação do figurinista Bob Ringwood para o filme. Já O Justiceiro* ignora o visual essencial do personagem da Marvel Comics e deixa Dolph Lundgren sem a famosa camiseta preta com a efígie estilizada da caveira, tão adorada por metaleiros e skatistas. Respeitar o phisique du role de um personagem que se pretende adaptar para o cinema faz parte do segundo mandamento. Pode até não ser essencial em alguns casos, mas ajuda um bocado. Afinal, mesmo reconhecendo o grande talento de Nicholas Cage, quem vai se convencer com um Superman careca e com cara de carcamano? Só mesmo o iconoclasta Tim Burton, que já colocou o baixinho e apagado Michael Keaton no comando do batmóvel.

Falando de linguagem, não podemos esquecer que o cinema e as histórias em quadrinhos são as únicas formas de arte que compartilham a montagem – um elemento gramatical básico a toda e qualquer forma de narrativa visual. É lógico que sua aplicação é diferente em cada uma delas. No cinema é essencialmente a junção de dois planos, dois pedaços de filme, dando-lhes um ritmo e/ou um novo sentido. Nos quadrinhos é a diagramação, a sucessão de quadros e de páginas, também trazendo um ritmo e um sentido à história.

Um dos segredos de uma boa adaptação é saber dominar a montagem – manter, enfim, o ritmo da história. Fazer com que o espectador sinta estar folheando uma revista. Sem descuidar, naturalmente, da fotografia, pois aqui a linguagem narrativa a ser adaptada também é visual. Uma boa iluminação, os enquadramentos apropriados, o uso adequado de grandes angulares (lembre-se que heróis de papel vivem num mundo de fantasia, não realista), chicotes de câmera, etc. Para se fazer um “cine-gibi” eficiente não basta ter um arsenal de recursos: é preciso, acima de tudo, saber usá-lo com muito bom senso.

A SEGUIR... HERÓIS DE SÁBADO À TARDE.


* Apenas lembrando que este texto foi escrito antes das versões mais recentes de Batman e do Justiceiro, mais fiéis aos seus personagens de papel - especialmente o anti-herói da Marvel.

 

sábado, 14 de fevereiro de 2009

CINEMA DE PAPEL (parte 2) - NA TERRA DOS SONHOS

CINEMA DE PAPEL (Parte 2) – NA TERRA DOS SONHOS

Oswaldo Lopes Jr.

(Matéria escrita para a revista VEREDAS # 28 do Centro Cultural Banco do Brasil em abril de 1998, e republicada aqui na VALISE DE CRONÓPIO em oito partes)

A primeira vez que as artes irmãs – cinema e quadrinhos – brincaram juntas foi na primeira década do século 20, com o desenho animado Little Nemo, de Winsor McCay. Além de ser um dos grandes pioneiros do cinema de animação, McCay era ilustrador, chargista e se tornou um dos nomes mais importantes das histórias em quadrinhos. Em 1903, quando trabalhava no jornal New York Herald, criou Little Nemo in Slumberland, uma das mais ousadas e brilhantes HQs de que se tem notícia até hoje. As aventuras fantásticas de um garoto no país dos sonhos surpreendeu a todos por seu belíssimo tratamento plástico conjugado a um texto onírico. Vertigem, queda, fuga, sufocação, gigantismo e outras loucuras faziam parte das "viagens" do menino.

McCay também usou todas as imagens e símbolos que pudessem preencher o imaginário de qualquer criança da época: paradas de circo, dragões, sereias, Papai Noel, seres mitológicos, personagens de fábulas, reinos distantes, viagens de balão. Tudo isso em painéis coloridos, em estilo art nouveau, construídos como um conjunto integrado e não como simples quadrinhos que se sucedem. Feitas com a mais rigorosa perspectiva, ricas em detalhes e com angulações inusitadas para o olhar daquela época, as pranchas de Little Nemo in Slumberland surpreendem por apontar já para uma linguagem cinematográfica, tornando natural uma relação entre cinema e histórias em quadrinhos.

De olho nessa relação e armado de seu prestígio, Winsor McCay se aventurou pelos caminhos desconhecidos do desenho animado. Gastou muito tempo, dinheiro e paciência em busca do timing apropriado para dar veracidade aos movimentos, e teve que fazer mais de quatro mil desenhos para cada filme. Mesmo sem experiência, conseguiu realizar nove deles em onze anos (sendo o mais famoso Gertie, the Trained Dinosaur, em que a ação filmada se misturava com desenho animado – o próprio autor adestrando e dando uma maçã à graciosa dinossaurinha) e se orgulhava muito de seu pioneirismo.

Porém, por mais dedicado que McCay fosse ao cinema, nenhum de seus filmes se equipara em termos de qualidade às suas histórias em quadrinhos. É interessante observar que, enquanto a arte cinematográfica veio se aprimorando técnica e plasticamente ao longo do século (com o advento da cor, do som, largura da tela, equipamentos), os quadrinhos alcançaram sua plenitude logo nos primeiros anos. Quanto à narrativa, as duas artes moldaram seus fundamentos e sua gramática básica bem cedo. Os códigos usados hoje pelo cinema são os mesmos forjados por Griffith e Eisenstein no início do século 20, por exemplo. Contudo, quanto à estética, a arte dos quadrinhos certamente foi mais precoce que sua irmã de celulóide. Little Nemo in the Slumberland é uma grande prova disso.

A SEGUIR... TRADUÇÃO, MONTAGEM E BOM SENSO.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

CINEMA DE PAPEL (parte 1)

CINEMA DE PAPEL (parte 1)

de Oswaldo Lopes Jr.

(Matéria escrita para a revista VEREDAS # 28 do Centro Cultural Banco do Brasil em abril de 1998, e republicada aqui na VALISE DE CRONÓPIO em oito partes, a partir de hoje)

Formas de arte irmãs, filmes e histórias em quadrinhos evoluíram junto e vêm trocando entre si influências, histórias e personagens desde que nasceram.

Que os produtores de Hollywood têm lido muitos gibis ultimamente não é novidade para ninguém. Mas, de repente, o consumidor atento começa a reparar que as prateleiras da sua videolocadora e as da banca de jornais da esquina têm oferecido uma quantidade inimaginável de títulos em comum. Só que, ao contrário do que pensam alguns, não se trata de um modismo recente. O cinema e as histórias em quadrinhos são artes irmãs. Mais até: são gêmeas, e desde que nasceram se dão muito bem, obrigado.

Gêmeas?! Sem dúvida – inclusive no sentido estrito de terem a mesma idade. Muito antes das superproduções George Lucas e James Cameron ou das graphic novels de Frank Miller, mais precisamente em 1895, enquanto na França um grupo de convidados atônitos assistia às primeiras imagens em movimento feitas pelos irmãos Lumière, na América um menino de camisolão amarelo começava as suas estripulias no suplemento dominical do jornal New York World. Desde então, com o filme A Saída dos Operários da Fábrica Lumière e a tira Yellow Kid, de Richard Outcault, o mundo começou a mudar sua imagem.

Muito mais do que simples coincidência, o surgimento sincrônico dessas duas formas de expressão é uma conseqüência natural daquele momento histórico. O mundo ocidental estava em pleno auge da segunda Revolução Industrial, quando se buscavam meios de produção mais ágeis e sofisticados, capazes de gerar maior lucro e facilitar a dominação econômica sobre países menos desenvolvidos. A vida cultural e artística da época caminhava fatalmente para a elaboração de uma imagem em movimento.

As pesquisas fotográficas de Pierre Janssen, Etienne-Jules Marey e Eadweard Muybridge somaram-se à Tese da Persistência Retiniana, descoberta pelo Dr. Peter Mark Roget em 1824. Segundo ela, para o olho humano uma seqüência de 24 imagens estáticas mostradas em um segundo é capaz de simular movimento. Tudo isso, somado às diversas invenções de Thomas Alva Edison no campo do som e da imagem, convergiu para a criação do cinema.

Já a gestação das histórias em quadrinhos começou bem antes. Desde a Era Paleolítica que o homem já se preocupava em registrar o seu cotidiano em forma de desenhos rudimentares nas paredes das cavernas. Esse hábito se estendeu pelo tempo e veio se aprimorando através da História. Os hieróglifos e os baixos-relevos egípcios, a secular representação da Via Sacra pela Igreja Católica, os trípticos de Bosch e Brüghel, as gravuras seriadas de Francisco Goya e Gustave Doré, os cartazes de shows itinerantes contando histórias em grandes quadros, os pôsteres de crimes famosos vendidos nas feiras, as caricaturas e as charges políticas foram os pré-requisitos históricos que propiciaram a efervescência criativa mundial em torno de uma linguagem de imagens seqüenciais mais sofisticada na segunda metade do século 19.

O americano Yellow Kid é celebrado como o pioneiro das histórias em quadrinhos – mas a história não é bem assim. Richard Outcault foi o primeiro a usar o conceito de balão, escrevendo seus diálogos no camisolão amarelo do personagem-título. Mas as histórias contadas em desenhos seqüenciais já existiam há pelo menos três décadas antes. Em 1865, o alemão Wilhelm Busch criou Max & Moritz, uma historieta seriada contando as aventuras de dois garotos endiabrados (inspiração primeira de todos os pestinhas de papel e tinta, dos Sobrinhos do Capitão de Rudolph Dirks a Calvin e Haroldo de Bill Watterson). Cinco anos depois, o Brasil entrava no ranking, com a publicação semanal de As Aventuras de Nhô Quim, do italiano naturalizado brasileiro Angelo Agostini, na revista Vida Fluminense.

A SEGUIR... NA TERRA DOS SONHOS.

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